MARIA-FUMAÇA (de Porto Alegre à Bento Gonçalves, uma viagem no tempo)

Embarcávamos, às vezes, na bonita Estação Central (Av. Farrapos esquina com Voluntários da Pátria) ou também na Diretor Pestana que ficava a uns quinhentos metros do aeroporto Salgado Filho no sentido de quem ia para o interior do Estado.

Uma única vez em agosto de 1954, alguns dias antes do suicídio de Getúlio, partimos da Estação Canoas em direção à Bento, onde, aliás, se deu um caso engraçado com o meu irmão Paulo: Era madrugada e estava escuro quando entramos no vagão (levantar cedo para passear não era problema, principalmente quando se tratava de visitar os avós e tios na colônia).   Outro trem que se encontrava estacionado ao lado do nosso, já pronto para partir, estava lotado de trabalhadores que se dirigiam de Canoas a Porto Alegre. Meu irmão, curioso, ficou próximo da porta assistindo a movimentação do trem operário. De repente ele chegou perto da mãe e falou:

– Mãe, me jogaram água quente no braço!

A mãe, preocupada, olhou, cheirou e disse:

– Água quente coisa nenhuma, guri, isto é mijo!

Algum trabalhador mal educado se aproveitou da escuridão para tirar a “água do joelho” mirando o nosso comboio.

Saindo da gare central o trem seguia pela Voluntários (Caminho Novo) até um pouco antes da igreja Nossa Senhora dos Navegantes, onde contornava à direita passando ao lado da fábrica de tecidos Renner (hoje, shopping DC Navegantes), passava pela Diretor Pestana e seguia paralelo a BR-116 até Esteio, onde ao passar pela fazenda dos Greff (Parque de Exposição Assis Brasil) seguia à esquerda. Mais adiante atravessava o rio dos Sinos.

Chegávamos a Montenegro. Ali havia muitos trens e a parada era a mais longa. Às vezes, não sei por que motivos faziam troca de locomotivas. No momento em que a locomotiva substituta encostava-se aos vagões para ser engatada, o tranco e o estrondo eram fortíssimos e sacudia tudo, a ponto de assustar os passageiros. Passavam, vez por outra, uns caras “remando” com longas varas em cima de um tablado sobre rodas, eram operários que percorriam a ferrovia fazendo a manutenção dos trilhos e dormentes.

As paisagens do trajeto eram lindas: banhados, capões, campos, riachos, roças, parreirais, montanhas, rios.         

Atravessar as pontes de ferro era algo especial, era uma sensação diferente, o barulho era atordoante e contínuo, não era entrecortado como no leito comum. Os ferros trançados da ponte “passavam” rapidamente. Lá em baixo, a beleza do rio.

Tudo era muito bom, mas, o que mais queríamos mesmo era chegar ao túnel em Linha Bonita.

O cobrador, seguidamente passava pedindo os bilhetes para picotá-los e em seguida devolvia-os.

De tempos em tempos, o comboio parava para abastecer de água a caldeira da locomotiva. Antes de chegar às Estações das cidades o cobrador, de vagão em vagão, gritava:

– Maratá!   – Salvador!   – Barão!

Aqueles que tinham que descer se preparavam com as suas bagagens. Alguns com as velhas e surradas malas de papelão revestidas com lona listrada, que pra não se abrirem amarravam com cordas ou passavam um cinto à volta, outros com malas de garupa e outros, à falta de malas: sacos. Embarcavam também colonos com suas famílias. As crianças, assustadas, seguravam-se fortemente e escondiam-se atrás da saia da mãe e de vez em quando, vagarosamente arriscavam uma tímida espiada, mas, quando vistos tornavam a se esconder rapidamente.

Nas Estações, eram comuns nas plataformas os vendedores ambulantes oferecerem pela janela do trem os produtos das colônias locais. Insistiam pra vender até o momento em que o sino batia avisando que era hora do trem partir. Alguns eram tão persistentes que corriam ao lado do trem em movimento, ainda tentando negociar. Havia o chamado carro restaurante, mas raramente se comprava alguma coisa neles, eram muito caros.

Quando chegávamos a Salvador do Sul sabíamos que se aproximava a hora de atravessar o famoso túnel.

O cobrador novamente percorria os vagões, só que dessa vez pedia para que se fechassem as janelas.

– Túnel! Olha túnel! Fechem as janelas! Fechem as janelas!

Quando as luzes começavam a se acender era o grande sinal: o túnel, finalmente estava perto.

Ao entrar na escuridão viam-se as brasas incandescentes passarem rápidas e rentes aos vidros. Para nós era dantesco. Sorte que ninguém desobedecia ao aviso. As pessoas que desobedeciam, e acontecia, saiam com a roupa e a cara chamuscadas. O vagão ficava todo enfumaçado, o cheiro era inconfundível, meio adocicado, seria devido ao tipo de lenha que era queimada na locomotiva?

A próxima Estação era Barão. Depois vinha Carlos Barbosa onde se fazia baldeação para Bento Gonçalves (o trem seguia para Caxias).

Como os passageiros para Bento eram poucos, a Viação Férrea disponibilizava um carro motor, espécie de ônibus sobre trilhos.

Depois de Barbosa, na época conhecida como produtora de batata inglesa e vime chegávamos a Garibaldi (Terra de alguns de nossos parentes).

Durante todo o trajeto quando o trem ou também o carro motor passavam próximos as roças, os colonos paravam de capinar para olharem. Nós e outros passageiros abanávamos para eles, e quando correspondidos ficávamos faceiros. Nas longas curvas da linha, nos causavam admiração e espanto poder ver ao mesmo tempo todos os vagões e a locomotiva. “Bah! Como era grande o trem”. Os trilhos em boa parte eram ladeados pelo capim cidró. Os postes escuros do telégrafo também acompanhavam os trilhos (a comunicação entre o trem e as gares era feita por código Morse).

Ao passar por Garibaldi, não me sai da memória, a vista do casario, da igreja, e principalmente do prédio (vinícola?) que ficava ao lado e abaixo do nível da linha férrea, onde estava escrito no telhado: George Aubert. Eu pensava: Não estaria escrito errado? Não seria George Alberto?

Finalmente, Bento Gonçalves. Descíamos na Estação que ficava próxima a fábrica das famosas gaitas Todeschini. Chamava-me a atenção a torre semi acabada da igreja, “sem a parte de cima”, eu achava que era assim mesmo. Alguém, um ou dois anos antes, me dissera, mentindo, que ela era assim para os aviões não baterem.

Seguíamos a pé até a cidade baixa em direção a rodoviária. Embarcávamos no ônibus do Toninho Pasini para Santa Teresa, na época, 4º distrito de Bento, onde, do outro lado do rio Taquari, na Linha Alegre, Muçum, ficava a colônia dos meus nonnos (avós).

As Marias-fumaças foram substituídas pelos trens a diesel. Entre Carlos Barbosa e Bento Gonçalves ainda funciona a Maria-fumaça, só que agora como atração turística. Por que destruíram a nossa já pequena malha ferroviária? Era um transporte seguro, barato e agradava a todos.

Fotos: Zero Hora e do Centro de Preservação da História da Ferrovia no RGS (livro).

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“FAZENDEIRO”

Como já falei anteriormente, sempre fui um aluno mediano. Lembro-me da dificuldade que era pra eu aprender matemática, principalmente.

O problema maior, penso, é que eu era muito disperso, estava quase sempre “viajando”, no bom sentido, é claro, nada de drogas.

Que dificuldade para entender os primeiros problemas de aritmética…

E vinha o enunciado:

 “Numa fazenda o fazendeiro cria 10 vacas, 60 ovelhas, 200 galinhas, etc. Se vendeu 2 vacas e comprou  3 ovelhas. Quantas vacas restaram e quantas ovelhas ele tem agora na fazenda?”

Aí me embaralhava todo, pois, eu associava fazenda de gado com fazenda tecido. E o meu raciocínio ficava girando em volta daquilo.

– O que tem a ver uma coisa com a outra?  O que tem a ver vacas, bois e ovelhas com tecidos?  Eles ficam em cima das fazendas (tecidos)? Que coisa estranha, eu pensava.

 A única fazenda que me vinha à cabeça era quando eu acompanhava a minha mãe até uma loja e que a ouvia dizer, apontando para um rolo de tecidos na prateleira:

– Por favor, eu quero ver aquela fazenda, ali!

E o “fazendeiro” prontamente puxava o rolo e o colocava sobre o balcão. E agora me vinha esse professor misturar as coisas?

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Para fazer o exame de admissão ao ginásio precisei de aulas particulares de matemática e português. O professor de matemática morava perto de casa, na mesma rua, na Auxiliadora. Nós, a gurizada, achávamos que ele era um sujeito maluco. Morava sozinho e tinha muitos cachorros.

Ele ensinava bem, mas, o que não dava pra agüentar, e tive que agüentar, era o cheiro da cachorrada.

Passei no Admissão, porém, por um bom tempo associei matemática com cheiro de cachorros.  

Nos primeiros anos do ginásio, pra não repetir o ano, precisei mais uma vez tomar aulas particulares. Só que agora com uma professora, bela estudante universitária, quanta diferença. O trauma foi logo pro espaço.

Colônia, chácara e cabaña eu sabia o que eram. Fazenda, não. “Ora, pois, pois”.

Admissão ao ginásio (1º grau): Exame escrito e oral que eram feitos após a conclusão do 5º ano primário.

Prestei o Admissão em 1959 no colégio Champagnat no bairro Partenon. Pra chegar ao colégio eu seguia de bicicleta pela Carlos Gomes, depois descia o Beco do Salso (Cristiano Fischer), atravessava a Ipiranga, passava rente ao muro do 18º R.I. (Regimento de Infantaria do Exército, onde ninguém queria servir) e entrava à direita na Bento. É isso aí.

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UMA QUASE TRAGÉDIA – Viamão RS

A irmã Leila, entusiasmada, anunciou:

– Vamos fazer um pic-nic lá próximo do arroio Fiúza (Passo do Fiúza).

Foi uma alegria geral. Vieram em seguida as recomendações de praxe: Caminhar ao lado da estrada; cuidado com os carros; andar juntos; não correr e também não entrar na água!

– Todo mundo ouviu?

– Sim, irmã!

Pela estrada, apesar da gritaria, foi tudo bem. Quando estávamos chegando às proximidades do arroio e que o “cento e um” avistou a água, subitamente saiu em disparada e se atirou. Deu uma barrigada. Começou a se debater. Estava se afogando e sendo levado pela correnteza.

A irmã religiosa levou as mãos à cabeça, depois, em pânico correndo pela margem, ergueu o hábito até os joelhos fazendo menção de também se jogar. Gritava desesperada.

E nós, ali na beira, olhando assustados sem saber o que fazer.

Graças a Deus, conosco estavam dois alunos semi-internos que conheciam e eram da região (aqueles que trouxeram partes de armas das trincheiras farroupilhas). Jogaram-se na água e nadaram rapidamente até o “cento e um”. Conseguiram salvá-lo. Parece que estou vendo a cara apavorada dele ao sair do arroio, dava pena.

No mesmo instante, aliviadíssima, mas ainda muito nervosa, a irmã religiosa disse:

– Acabou o pic-nic! Vamos embora! Já!

Se o menino morresse, o que seria dito aos pais? Adiantaria explicar? Penso até hoje nos momentos de angústia daquela mulher.

O 101 (gordinho) era um bom colega. O que ele gostava mesmo era de fazer montagem de belíssimos e coloridos modelos de transatlânticos em papelão. Filho único de um casal de fazendeiros ali mesmo de Viamão. Certa vez, a convite dos pais dele, visitamos a fazenda com direito a churrasco e cavalgada.

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COLANDO DISCRETAMENTE – Viamão RS

Passando pelo Abrigo dos bondes na Praça XV, vi na vitrine de uma daquelas lojinhas e tabacarias ali existentes um brinquedo que imitava um foguete.

– Posso dar uma olhada no foguetinho?

– Não é um foguete, é um torpedo, disse-me o comerciante.

– O senhor me deixa ver?

 -Sim!

Examinei o artefato e vi que na ponta havia um pino móvel. Examinando melhor percebi que a ogiva, onde estava o pino móvel,  era encaixada sob pressão no resto do corpo do brinquedo.

Puxei e abri. Dentro havia um lugar próprio para a espoleta. Não era caro, comprei.

Era só colocar a espoleta, jogar pra cima que ao cair no chão o pino móvel, pressionado, provocava o estouro da espoleta.

Quando reiniciaram as aulas no internato em Viamão, levei o meu brinquedinho.

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Preparei a cola numa folha de caderno e coloquei debaixo da carteira onde também estava o meu torpedo devidamente municiado.

A sabatina escrita começou. Como eu não sabia quase nada comecei a procurar a cola em baixo da carteira. Esforçava-me para parecer natural, mas, não conseguia. Cabeça erguida, olhando pra frente de olho na professora. A mão direita estava sobre a carteira segurando o lápis como se eu estivesse escrevendo (crianças não usavam caneta). A mão esquerda habilmente e lentamente puxava a folha da cola para fora.

De repente, quase nos meus pés, um estouro. Que baita cagaço!

Imediatamente, outro susto, me foi tirada a sabatina e a cola. Certamente ela já estava de olho em mim.

– Zero!  Disse-me ela.

– E depois vamos conversar com a madre superiora!

O raio do torpedinho foi parar em cima da folha da cola. Ferrei-me de verde e amarelo.

Gurizada, o certo mesmo é estudar.

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ARREMESSO DE BOTINA – Viamão RS

Em 1957 e 1958, eu e meu irmão fomos estudar em regime de internato no colégio Stella Maris em Viamão. O colégio ficava mais ou menos a uns duzentos metros atrás da igreja matriz Nossa Senhora da Conceição (lindo o interior dessa igreja. É a 2ª mais antiga do Estado) e dava frente para o campo do Tamoio, principal time da cidade.

Durante o dia tínhamos aulas pela manhã e pela tarde. Sempre fui um aluno mediano, talvez os professores até me achassem medíocre.

À noite, depois das orações na capela nos dirigíamos em fila dupla, sempre em fila, para o dormitório.

Acredito que o alojamento era para umas sessenta crianças. Havia, aproximadamente, quatro fileiras de camas baixas (quinze por fileira). A minha cama ficava na primeira fileira à direita de quem entrava no recinto, a cabeceira era encostada na parede de modo que eu tinha uma ampla visão do alojamento. Olhando em diagonal de onde eu estava, à esquerda, ficavam os banheiros e à direita, a cela da irmã religiosa.

Uma ou duas juvenistas, jovens postulantes à freira, ficavam supervisionando os internos até que se ajeitassem para dormir. Posteriormente apagavam as luzes e se retiravam.

Horas mais tarde quando a maioria já dormia, chegava a irmã e se recolhia à sua cela. Pela fresta da porta do seu quarto dava pra ver quando ela apagava a luz. Aí, eu dava um tempo.

Assim que, pelos meus cálculos, todos estivessem dormindo, levantava-me sorrateiramente, engatinhava até a quarta ou quinta cama da minha fileira. Passava a mão na botina do menino que ali roncava e voltava pra minha cama. Em seguida arremessava a botina em direção ao outro lado do alojamento. O estouro que fazia quando a botina caia no chão era enorme. Aqueles que tinham o sono mais leve se acordavam. Às vezes a irmã também se acordava, acendia as luzes e não vendo mais nada voltava a dormir.

Eu me deliciava com aquilo. De manhã a diversão era ver o menino, aflito, procurando a sua botina e ainda por cima levar bronca dos outros.

Eu fazia isso umas duas vezes por semana. Não durou muito. Numa noite arremessei a botina e não ouvi o estouro no chão, apenas um ruído abafado. De repente um grito aterrador. Aconteceu algo que eu nunca pensara: a botina caiu no nariz de um guri. Foi uma correria. A religiosa acendeu as luzes. A gurizada estava toda em pé. O lençol do menino estava virado em sangue.

Fiquei muito assustado com o que estava acontecendo.

– Tem um carpim aqui, caiu em cima de mim!  Gritou o Vinícius, cuja cama ficava imediatamente à frente da minha.

– Então foste tu! Disse-lhe, nervosa, a religiosa.

– Não! Não fui eu! Defendeu-se quase chorando o Vinícius.

Alguém achou a botina e perguntou de quem era.

Querendo ser esperto, exagerei. Enquanto todos já estavam de pé, continuei deitado fingindo dormir. Foi o suficiente para a religiosa puxar as minhas cobertas e dizer:

– Levanta daí, cento e vinte, seu fingido!

– Foste tu!

É evidente que apesar do medo, neguei. Ficou por isso mesmo. “Não foi ninguém”.

Eu só fazia essa arte para ver o tumulto provocado pelo barulho e assistir, de manhã, o guri procurando o seu calçado. Jamais me passou pela cabeça o que poderia acontecer. Depois desse episódio foram instaladas lâmpadas (vigia) que ficavam acesas a noite inteira. Cento e vinte (120) era o meu número de matrícula na escola. Curiosidade: Recordo que meninos, semi-internos, naturais de Viamão, perguntaram numa aula de história se a professora queria que trouxessem restos de armas da revolução Farroupilha. A professora perguntou: Onde vocês conseguem?

– Nas trincheiras, é só cavar um pouco que a gente acha. Acharam e trouxeram.

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OS NETOS QUE SE CUIDEM

Morávamos em Canoas e eu estava com sete anos. Passei alguns dias na casa de meus avôs na Auxiliadora, em Porto Alegre.

Chegou a hora de retornar. Pegamos, eu e vovó, o bonde até o centro. De lá nos dirigimos até o fim da linha do ônibus canoense que ficava na Avenida Mauá ao lado do edifício do comércio (Palácio do Comércio). A marquise servia de abrigo.

Quando chegamos o ônibus estava no local, o motor funcionando e os últimos passageiros embarcavam.

Subi rapidamente no degrau e senti a mão de minha avó empurrando minhas costas.

– “Te acomoda aí, menino, que eu já subo!”

Tratei de entrar um pouco mais no já lotado veículo. O ônibus arrancou e vovó por ser gorda e lerda, ficou.

Quando me dei conta que estava sem a minha avó fiquei assustado, quase em pânico. Mas me esforcei pra ficar calmo e não chorar. Não chorei por vergonha. Com a voz embargada perguntei aos passageiros próximos se não tinham visto uma senhora gorda e descrevi como ela se vestia. Não, ninguém tinha visto. O ônibus seguia pela Farrapos e eu não sabia o que fazer. (Naquela hora não me lembrei que os ônibus da canoense faziam fim da linha no bar que pertencia ao Martins Muniz, primo da minha avó. O bar ficava um pouco além da Estação férrea, na faixinha).

De repente em plena faixa federal, era assim que nos referíamos a atual BR-116, um ônibus da mesma empresa nos ultrapassou e nos fez parar.

Entrou o cobrador e perguntou por mim. Pegou-me pelo braço e levou-me até onde estava a minha avó. Que alívio! Eu estava salvo.

Minha avó convenceu o motorista do ônibus seguinte a acelerar o máximo até alcançar o que eu estava. Certamente que muita gente ficou pelas paradas esbravejando, mas a causa era nobre.     Valeu vovó.

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KAMIKAZE, UMA TRAGÉDIA GAÚCHA

Ficou marcado na minha memória o trágico furto do avião de treinamento da VARIG (Viação Aérea Rio Grandense) acontecido em Porto Alegre. O avião seria um BT-13 ou BT-15.

Não me recordo exatamente o ano, se era 1955 ou 1956. O fato é que na época morávamos em Canoas e eu estudava no colégio lassalista São Luiz.

Em casa ouvi meu pai comentando com meu tio sobre o desdobramento do furto, pois, meu pai acompanhou pelo rádio. Fiquei tão atento a narrativa que me parecia estar vendo a cena.

Meu tio voltava do serviço, a pé, era sábado, doze e trinta ou treze horas, quando assistiu uma autêntica batalha aérea: Dois aviões, iguais, voavam próximos. Um deles se lançava sobre o outro na tentativa evidente de provocar uma colisão, porém, o outro, com perícia se esquivava.

– “Que loucura esses sujeitos, pensou, fazendo esse tipo de treinamento em cima das casas”. 

Na verdade não era um treinamento, e sim um piloto tentando convencer o outro a levar o seu avião de volta ao local de onde havia decolado. Não conseguiu.

Tudo começou no bairro S. João em Porto Alegre num evento (jogo de futebol) no Aeródromo S. João (ou já se chamava Aeroporto Salgado Filho?).

Um mecânico da VARIG que havia sido demitido aproveitou a ocasião da festa e numa atitude de quem está fora de si, subiu na carlinga da pequena aeronave por ali estacionada, deu partida e decolou em direção a cidade de Canoas.

Deu um rasante sobre uma vila existente atrás da igreja matriz S.Luiz. (na praça da matriz eu pegava o ônibus diariamente). Diziam que a sua namorada ou irmã morava ou trabalhava nas imediações e que ele teria jogado um bilhete de despedida.

De volta a Porto Alegre, pelo rádio da aeronave ou por meio do bilhete, expressou a sua intenção de jogar o pequeno avião contra o Super Constellation, recentemente adquirido pela VARIG.

Teriam chamado o presidente da Companhia que tentou dissuadi-lo com a promessa de readmiti-lo. Não houve acerto.

Nesse meio tempo tentaram recolher o Constellation para dentro do hangar.

– “Não adianta esconderem, teria dito o suicida, estou vendo”.

Dito isto, embicou o avião em direção ao Constellation, porém, errou o alvo e estatelou-se contra o hangar. Testemunhas disseram terem visto ele, no último momento, soltar a mão do manche e levar ao rosto, mudando então a trajetória do avião.

A tragédia foi assistida por muita gente. Algumas emissoras de rádio estavam presentes. Triste lembrança.

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